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Ataques contra candidatas nas redes sociais misturam críticas políticas com misoginia, racismo, ataques à aparência e à idade, aponta pesquisa

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Ataques contra candidatas nas redes sociais misturam críticas políticas com misoginia, racismo, ataques à aparência e à idade, aponta pesquisa

Estudos do Observatório de Desinformação e Intolerância analisaram manifestações sobre Marina Silva e Samara Martins durante a campanha eleitoral de 2026

São Paulo, setembro de 2026 – Ataques pessoais, comentários sobre aparência e idade, desqualificação intelectual, racismo e manifestações de violência apareceram entre as mensagens dirigidas a duas candidatas durante a campanha eleitoral de 2026, segundo levantamentos realizados pelo Observatório de Desinformação e Intolerância.

As pesquisas analisaram manifestações nas redes sociais sobre Marina Silva (Rede), candidata ao Senado por São Paulo, e Samara Martins (UP), candidata à Presidência da República. Os estudos foram conduzidos pelas professoras doutoras Carla Montuori Fernandes e Cláudia Nonato.

Os resultados mostram que, embora parte das publicações trate de propostas e posições políticas, uma parcela das manifestações ultrapassa a crítica política e utiliza gênero, raça, idade e características físicas para desqualificar as candidatas.

Metade das manifestações analisadas sobre Marina Silva envolveu ataques pessoais ou violência
O levantamento sobre Marina Silva analisou manifestações publicadas entre 21 de agosto e 21 de setembro de 2026. A partir do monitoramento, os pesquisadores selecionaram um vídeo no YouTube que concentrou o maior número de manifestações negativas relacionadas à candidata. Foram analisados 261 comentários.

Os pesquisadores classificaram as manifestações em cinco grupos. Os resultados foram:

  • 24,4%: ofensas, desumanização e ataques pessoais;
  • 17,1%: ataques relacionados a gênero, corpo ou idade;
  • 8,5%: violência, hostilidade ou incitação à agressão;
  • 36,6%: desqualificação política e moral;
  • 13,4%: polarização político-partidária.

Somadas, as três primeiras categorias representam 50% das manifestações analisadas.
Entre os comentários, apareceram termos depreciativos relacionados à aparência e à idade da candidata, além de referências a agressões físicas e expressões de violência.

“A crítica política faz parte do processo democrático, inclusive quando é contundente. O problema surge quando o argumento é substituído pela desumanização, pela ameaça ou pelo uso de características pessoais para retirar da candidata sua legitimidade e sua condição de participante do debate público”, afirma a Profª Drª Carla Montuori Fernandes.

Samara Martins teve 288 menções negativas identificadas em uma semana

O segundo levantamento analisou a presença de Samara Martins nas plataformas digitais entre 13 e 19 de setembro de 2026.

Nesse período, foram identificadas 656 menções, com alcance social estimado em 26,2 milhões de usuários únicos e aproximadamente 15 mil interações.

Do total monitorado, 288 menções foram classificadas como negativas e 170 como positivas. Para a análise de conteúdo, os pesquisadores selecionaram 154 manifestações associadas a discursos de raiva.

Os comentários foram organizados em cinco temas: economia e direitos sociais; plano de governo e visibilidade; desqualificação da candidata; segurança pública; e identidade e representação.
O X (antigo Twitter) concentrou a maior parte das manifestações, com 405 registros (61,7%), seguido pelo YouTube, com 186 (28,4%). As publicações na web representaram 7% e o Bluesky, 2,9%.

No caso de Samara, muitas manifestações permaneceram relacionadas às propostas da candidatura, principalmente temas como economia, dívida pública, salário mínimo e direitos sociais. Entretanto, também foram identificados comentários que deixaram a discussão política de lado para questionar sua inteligência, preparo e legitimidade.

O levantamento registrou ainda manifestações relacionadas à presença de uma mulher negra na disputa presidencial, incluindo comentários com termos racistas e depreciativos.

“A inserção de uma mulher negra na disputa presidencial expõe outras camadas de intolerância. As críticas às propostas convivem com manifestações que mobilizam o racismo e o machismo para diminuir a candidata e deslegitimar sua presença na política”, afirma a Profª Drª Cláudia Nonato.

Entrevistas e debates aumentaram a quantidade de comentários
A pesquisa também identificou que momentos de maior exposição pública das candidatas foram acompanhados por aumento no volume de manifestações.

No caso de Samara Martins, houve crescimento das menções nos dias 13 e 14 de setembro, após uma entrevista concedida pela candidata ao SBT News, em 12 de setembro, posteriormente disponibilizada no YouTube.

Outro aumento ocorreu em 18 de setembro, quando Samara participou de um debate promovido pelo Metrópoles e pelo Inteligência Ltda. Naquele dia, as menções negativas chegaram próximas de 70 registros, enquanto as positivas ficaram próximas de 50.

Os dados indicam que entrevistas, debates e outros momentos de maior exposição podem ampliar a circulação de comentários sobre candidatas, inclusive manifestações negativas.

Ataques assumem diferentes formas

Para o Observatório de Desinformação e Intolerância, os dois estudos mostram que a violência discursiva no ambiente digital pode aparecer de diferentes maneiras.

No caso de Marina Silva, destacaram-se ataques relacionados ao corpo, à idade, à aparência e manifestações de violência. No caso de Samara Martins, foram identificadas desqualificação intelectual e manifestações relacionadas a racismo e machismo.

Apesar das diferenças entre os dois levantamentos, os pesquisadores identificaram um ponto em comum: características pessoais das candidatas são utilizadas em parte dos comentários para deslocar a discussão das propostas e da atuação política para ataques à pessoa.

“No caso de Marina Silva, destacam-se os ataques ao corpo, à idade e à própria integridade da candidata. Em relação a Samara Martins, a crítica política convive com a desqualificação intelectual e com manifestações racistas e machistas. Apesar das diferenças entre os dois corpus, atributos pessoais são utilizados para reduzir as candidatas e afastar a discussão de suas ideias”, conclui Carla Montuori Fernandes.

Sobre o Observatório de Desinformação e Intolerância

O Observatório de Desinformação e Intolerância (ODI) é um projeto de pesquisa iniciado em junho de 2025, com financiamento do CNPq e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista (UNIP).

O projeto monitora e analisa a circulação de desinformação, negacionismo e discursos de intolerância em plataformas digitais. A iniciativa busca produzir conhecimento sobre esses fenômenos, construir um banco de dados unificado, contribuir para estratégias de letramento digital e subsidiar políticas públicas de enfrentamento à desinformação e à intolerância.

Coordenado pela Profª Drª Carla Montuori Fernandes, o Observatório reúne pesquisadores de diferentes instituições, incluindo a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Jornalista e fundadora do Potência Periférica, atua com comunicação periférica há mais de 11 anos, iniciou o trabalho em Paraisópolis com assessoria de imprensa e produção cultural.

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