Antes de votar, precisamos falar do Brasil que está nas periferias
Chegamos à reta final das eleições. Neste domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governador, senador e deputados. O primeiro turno acontece das 8h às 17h, no horário de Brasília.
Depois de tantos debates, entrevistas, propostas e discussões, talvez seja hora de fazer uma pausa e pensar em uma pergunta simples:
Que Brasil queremos construir a partir das escolhas que faremos neste domingo?
Faço essa pergunta a partir da realidade que conheço. Nasci e cresci na periferia do Recife e hoje trabalho diariamente com comunidades de diferentes partes do Brasil. E quanto mais conheço esses territórios, mais tenho certeza de uma coisa: a favela não pode continuar aparecendo no debate público apenas quando se fala de pobreza, violência ou falta de infraestrutura.
Existe outro lado que precisa ser enxergado.
A favela é formada por gente que trabalha, empreende, estuda, cria seus filhos, consome, produz e busca oportunidades.
O Censo 2022 do IBGE identificou 12.348 Favelas e Comunidades Urbanas em 656 municípios brasileiros, onde vivem cerca de 16,4 milhões de pessoas.
São milhões de brasileiros.
E esses milhões também precisam estar no projeto de futuro do país.
A FAVELA JÁ TEM UMA ECONOMIA
Quem conhece uma comunidade sabe do que estou falando.
Tem a mulher que faz bolo e vende para os vizinhos, o barbeiro, a manicure, a costureira, o pequeno comerciante, o vendedor de comida, o profissional que trabalha pela internet, o jovem que está aprendendo tecnologia.
Essas pessoas não estão esperando alguém chegar para começar.
Elas já começaram.
O que muitas vezes falta é acesso: a crédito, capacitação, tecnologia, mercado e oportunidades.
Por isso, quando penso no que precisamos cobrar dos próximos governos, não penso apenas em políticas de assistência. Elas são importantes e necessárias para quem precisa.
Mas precisamos também falar de inclusão produtiva, geração de renda e autonomia.
As empresas também podem transformar
Essa mudança de olhar não depende apenas do poder público.
As empresas também têm um papel importante.
E não estou falando somente de doação ou patrocínio. Estou falando de comprar, contratar e colocar empreendedores das periferias dentro das cadeias produtivas.
Aqui em Pernambuco temos um exemplo que conheço de perto.
A Baptista Leal compra uniformes produzidos pelo Costurando Sonhos Brasil, projeto que trabalha com capacitação e geração de renda por meio da costura.
Pode parecer apenas uma relação comercial, mas existe algo maior por trás.
Quando uma empresa compra de um empreendimento como esse, aquele pedido ajuda a manter pessoas trabalhando, gera renda e faz o dinheiro circular.
É uma relação de negócios que também produz impacto social.
É esse tipo de conexão que precisamos ampliar.
A favela pode ser fornecedora, pode prestar serviços, pode produzir e pode fazer parte das cadeias de grandes empresas.
E a educação ?
Também precisamos olhar para o futuro.
Programação, Inteligência Artificial, tecnologia, empreendedorismo e novas profissões já fazem parte da nossa realidade. Essas oportunidades precisam chegar às periferias e também às pessoas com deficiência.
É isso que buscamos fazer com o Projeto Cidadania Tecnológica, do G10 Favelas, que oferece capacitação em Programação e Inteligência Artificial para pessoas com deficiência.
Quando alguém que teve poucas oportunidades passa a ter acesso a uma ferramenta que pode abrir portas no mercado de trabalho, estamos falando de muito mais do que tecnologia.
Estamos falando de autonomia.
O jovem da periferia e a pessoa com deficiência não precisam apenas de proteção. Precisam de oportunidade para estudar, trabalhar, empreender e construir sua própria história.
Segurança também é oportunidade
Não podemos falar de futuro sem falar de segurança.
É necessário combater o crime e fortalecer as instituições de segurança, mas também precisamos discutir o que estamos oferecendo aos jovens antes que eles sejam atraídos pelo crime.
Educação, esporte, cultura, qualificação profissional, primeiro emprego e empreendedorismo fazem parte dessa conversa.
A presença do Estado na periferia não pode acontecer somente quando existe uma operação policial ou uma tragédia.
Também precisa acontecer para abrir portas.
O que devemos cobrar depois da eleição
No domingo, cada eleitor fará suas escolhas.
Mas a nossa participação não termina quando a urna for desligada.
Precisamos continuar cobrando respostas.
Como serão gerados empregos nas periferias?
Como será facilitado o crédito para quem quer empreender?
Como os jovens serão preparados para as novas profissões?
Como a tecnologia e a Inteligência Artificial chegarão a quem ainda não tem acesso?
Como as grandes empresas poderão se aproximar dos pequenos negócios das comunidades?
Como melhorar saneamento, mobilidade, habitação e infraestrutura?
E como combater a violência sem abandonar o desenvolvimento?
São perguntas que continuarão existindo depois da eleição, independentemente do resultado.
A favela precisa estar no projeto de Brasil
Eu acredito que precisamos mudar a maneira como o Brasil olha para as suas favelas.
Não somos apenas territórios de carência.
Somos territórios onde existe talento, trabalho, empreendedorismo, cultura e criatividade.
Por isso, neste momento em que cada brasileiro se prepara para fazer suas escolhas, deixo uma reflexão que considero importante:
que lugar as periferias ocuparão no projeto de Brasil que será construído nos próximos anos?
A resposta não deve estar apenas nos discursos de campanha.
Ela precisa aparecer nas políticas públicas, nos investimentos, na geração de empregos, na educação, na tecnologia, na segurança e, principalmente, nas oportunidades.
Porque falar sobre o futuro do Brasil sem falar sobre o futuro das periferias é falar apenas de uma parte do Brasil.
E uma coisa eu aprendi vivendo e trabalhando nesses territórios:
o Brasil que pode transformar o nosso futuro também está dentro das comunidades.
O que precisamos é garantir que ele tenha oportunidade para mostrar do que é capaz.
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