Da invisibilidade ao protagonismo: como Cida Raiz transforma o esporte em ferramenta de impacto nas periferias

Em um país onde o futebol é identidade nacional, o acesso ao esporte ainda é desigual, principalmente para meninas negras, periféricas e LGBTQIA+. É nesse cenário que a atuação de Cida Raiz se torna urgente e transformadora, conectando esporte, educação e justiça social para mudar destinos.
Psicóloga, especialista em História da África e do Negro no Brasil e vice-presidente nacional da Virada Feminina, Cida carrega uma missão que guia toda sua trajetória:
“Transformar vidas.”
Um retrato da desigualdade no esporte feminino

Cida Raiz ao lado da equipe de futsal feminino. Foto: Acervo pessoal.
Apesar do crescimento recente, os dados mostram que o esporte feminino no Brasil ainda enfrenta barreiras estruturais profundas.
Segundo o Ministério do Esporte, apenas 19,2% das atletas de futebol feminino no país possuem vínculo profissional, enquanto grande parte atua de forma amadora ou sem remuneração
Além disso:
- Cerca de 70% das jogadoras precisam ter outra fonte de renda, acumulando dupla jornada
- Apenas 30% das comissões técnicas são formadas por mulheres, mostrando desigualdade também fora das quadras
- O Brasil tem milhares de meninas jogando, mas um número ainda reduzido de atletas federadas e com estrutura profissional
Ao mesmo tempo, o interesse feminino pelo esporte cresce: o engajamento de mulheres com esportes aumentou cerca de 25% nos últimos anos, incluindo o futsal
Esse contraste revela um cenário claro: há interesse, talento e potência, mas faltam oportunidades.
Uma trajetória que nasce da vivência
Muito antes dos cargos institucionais, a história de Cida começou na prática. Aos 11 anos, já se mobilizava para acolher mulheres em situação de vulnerabilidade.
“Eu sentia na pele o que via acontecer com outras mulheres e sabia que algo precisava ser feito.” Afirma Cida Raiz.
Sua relação com o esporte também vem da base. Cida foi atleta amadora em diversas modalidades do futsal ao atletismo e viveu de perto o limite imposto pela falta de estrutura.
“Eu estava a segundos de atletas profissionais, mas sabia que não seguiria por falta de estrutura e patrocínio. E vi muitas meninas que queriam jogar, mas não tinham oportunidades.”
O futsal como porta de saída da invisibilidade

Cida Raiz ao lado da equipe feminina de futsal e do Prof. Claudio Fernandes. Foto: Acervo pessoal
Dessa vivência nasceu o Campeonato Virada Feminina de Futsal, hoje em sua terceira edição. Um projeto que vai além da quadra e se posiciona como ferramenta de inclusão.
“Essas meninas estão fora das oportunidades, fora do olhar. O esporte pode e deve ser a porta de saída desse estado de invisibilidade.”
Realizado de forma gratuita em territórios periféricos, o campeonato cria acesso onde antes havia ausência, ocupando espaços públicos e fortalecendo o protagonismo feminino.
Impacto real: quando o esporte salva vidas
Em um país onde a desigualdade limita trajetórias, iniciativas como essa mostram resultados concretos.
“O que mais me marcou foi ter a certeza de que vidas foram salvas com as ações que desenvolvemos.”
Mais do que formar atletas, o projeto forma cidadãs. O esporte se torna uma escola de vida, ensinando:
- Disciplina e responsabilidade
- Respeito ao coletivo
- Controle emocional
- Resiliência diante de perdas
- Autoconfiança e pertencimento
“Não é só sobre futebol. É sobre educação. As meninas aprendem a respeitar regras, lidar com frustração, entender o tempo, o espaço. Aprendem que ganhar e perder faz parte da vida.”
Esporte, educação e combate à violência caminham juntos
Dentro da Virada Feminina, o esporte não é isolado, ele dialoga diretamente com pautas estruturais.
“Não há igualdade com violência. Não há saúde sem um corpo saudável. E a educação transforma pessoas e pessoas transformam o mundo.”
A atuação de Cida no Núcleo de Gênero e Etnia também reforça esse compromisso com políticas públicas e enfrentamento às desigualdades.
“Meu papel é pensar políticas públicas eficientes no combate à discriminação, preconceito e xenofobia.”
Um futuro que já começou
Mesmo diante de desafios históricos, o futebol feminino brasileiro avança ainda que de forma desigual. O crescimento do futsal feminino, mesmo silencioso, aponta para um movimento consistente de transformação social e cultural
E o projeto liderado por Cida faz parte dessa virada.
“Sim, esse é o nosso sonho.”
Um recado direto da quebrada
Para as meninas que ainda estão à margem, a mensagem é clara:
“Nunca desistam dos seus sonhos.”
Como fortalecer
Quem quiser acompanhar ou apoiar o projeto:
- @cida_raiz
- @viradafeminina_oficial
Potência que nasce da base
Os dados mostram a desigualdade.
A vivência mostra o impacto.
E iniciativas como essa mostram o caminho.
Quando a periferia cria suas próprias oportunidades, o esporte deixa de ser apenas jogo e se torna política, acesso e transformação.Porque no fim, não é só sobre futebol.
É sobre quem sempre ficou de fora, finalmente poder jogar e vencer.



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