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Do descarte à circulação do saber: projeto ressignifica livros e amplia acesso à leitura em periferias de São Paulo

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Do descarte à circulação do saber: projeto ressignifica livros e amplia acesso à leitura em periferias de São Paulo


Criado pelo inspetor de alunos Edson Moura, Parceiros na Literatura atua há mais de uma década conectando obras descartadas a novos leitores em territórios com pouco acesso ao livro

O descarte de livros ainda em bom estado em escolas e bibliotecas particulares motivou a criação de uma iniciativa que hoje conecta doadores e leitores em diferentes territórios periféricos da cidade de São Paulo. Idealizado pelo inspetor de alunos Edson Moura, de 42 anos, o projeto Parceiros na Literatura surgiu em 2011 a partir da observação cotidiana de caminhões recolhendo acervos inteiros destinados ao lixo.

Na época, Moura trabalhava em uma escola de classe média alta e passou a questionar o destino daquele material. Com autorização da instituição, iniciou a triagem dos livros antes do descarte. O que era visto como resíduo passou a ser direcionado a escolas públicas, hospitais e comunidades onde o acesso à leitura ainda é limitado.

A decisão de intervir nesse processo está diretamente ligada à sua trajetória. Nascido na zona sul da capital paulista, Moura começou a trabalhar aos oito anos, puxando carroça e vendendo papelão. O contato com a leitura aconteceu tardiamente. “Como eu não tive acesso aos livros, quis dar oportunidade para outras pessoas que também não tiveram. Senti que era necessário”, afirma.

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O ambiente escolar em que atuava foi determinante para a retomada dos estudos. Ao observar estudantes participando de debates e fóruns, ele identificou uma diferença geracional na relação com o conhecimento. “O que mais me surpreendeu foi o protagonismo dos alunos e o discurso deles nos debates. Eu venho de uma geração em que o aluno era só ouvinte. Isso gerou um choque cultural e também foi um incentivo para eu voltar a estudar”, relata.

A volta à sala de aula ocorreu por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), experiência que, segundo ele, ampliou sua compreensão sobre os processos de aprendizagem. “Fazer o EJA me mostrou que não tem idade para voltar a estudar. Eu aprendi com alunos mais jovens, trocava experiências e também orientava sobre a importância de estar ali buscando conhecimento”, diz.

Atualmente cursando Pedagogia, Moura afirma que a vivência acadêmica passou a dialogar diretamente com o projeto. “Na faculdade, o Parceiros na Literatura entrou nas discussões. Levamos livros para a sala, organizamos feira literária e o projeto chegou a ser citado em aula. Isso ampliou minha visão”, explica. A mudança de perspectiva também veio da circulação por espaços culturais periféricos. “Comecei a frequentar saraus e batalhas de rima como espectador. Isso abriu minha mente para entender que a literatura não está só nos livros, mas em diferentes expressões.”

A iniciativa ganhou estrutura em 2017, quando passou a contar com o apoio de Jackson Pedro e foi formalizada como projeto. A partir desse momento, as ações se expandiram e passaram a alcançar diferentes frentes, como distribuição de livros em escolas de comunidades como Paraisópolis, atividades em unidades da Fundação Casa e realização de saraus em escolas públicas.

Mais do que a entrega de exemplares, o projeto propõe a circulação contínua das obras. Os livros são distribuídos em sacolas retornáveis, com incentivo ao compartilhamento entre familiares e vizinhos. “O importante é que cada pessoa leve o livro para casa e compartilhe com outras. Assim, ela transforma não só a própria vivência com a leitura, mas também a de quem está ao redor”, afirma Moura.

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O processo de curadoria é um dos pilares da iniciativa. Antes da distribuição, todos os livros passam por triagem manual, feita pelo próprio idealizador. “As pessoas às vezes confundem doação com descarte. Eu procuro levar o que há de melhor. Olho livro por livro, mesmo que leve dias, porque quem vai receber merece qualidade”, explica.

Durante esse processo, não é incomum encontrar objetos pessoais esquecidos entre as páginas. “Já encontrei documentos, fotos, e fiz questão de devolver. Essa triagem é importante em todos os sentidos”, diz.

Ao longo dos anos, o projeto consolidou uma rede informal de circulação de livros, conectando diferentes regiões da cidade e ampliando o acesso à leitura fora dos circuitos tradicionais. Sem sede fixa, a iniciativa se organiza a partir de parcerias, doações e ações itinerantes.

Atualmente, o Parceiros na Literatura segue ativo em São Paulo, com arrecadações contínuas e ações em territórios periféricos. A proposta é evitar que livros ainda utilizáveis tenham como destino final o aterro sanitário, ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao conhecimento em regiões historicamente afastadas desse direito.

Como ajudar

Interessados podem contribuir com a doação de livros em bom estado ou acompanhar as ações do projeto. A iniciativa busca ampliar a rede de circulação de obras e manter ativa a conexão entre quem doa e quem lê, fortalecendo o acesso à literatura em diferentes territórios da cidade.

Jornalista e comunicadora popular da zona sul de São Paulo, atua no fortalecimento da comunicação periférica, com foco em cultura, juventude e direitos humanos. Desenvolve reportagens, projetos e coberturas que conectam território, memória e protagonismo das quebradas, além de criar conteúdos estratégicos para iniciativas culturais, educativas e da economia criativa. Transita entre a rua, a pesquisa e a gestão da comunicação, sempre a partir das margens.

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