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Quando correr é resistir: mulheres da periferia transformam rotina e autoestima nas ruas da cidade

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Quando correr é resistir: mulheres da periferia transformam rotina e autoestima nas ruas da cidade

Mais do que atividade física, grupos de corrida nas quebradas se tornam espaços de pertencimento, cuidado e ocupação do território

Nem sempre o ponto de partida é uma academia ou um plano estruturado. Para muitas mulheres da periferia, a corrida começa no que está disponível: a rua, a calçada, a avenida do bairro. E, com o tempo, deixa de ser apenas exercício físico para se tornar um espaço de cuidado, pertencimento e transformação pessoal.

Foi durante a pandemia que Sabrina Luz, de 28 anos, encontrou na corrida uma forma de lidar com o momento difícil. Sem muitas opções, começou a treinar nas ruas da própria região.

Comecei a correr durante a pandemia, como uma forma de distração em meio a tudo que a gente estava vivendo. Era um momento muito difícil, e eu precisava de algo que me ajudasse a aliviar a mente. A periferia acabou sendo o caminho mais acessível, porque no fim das contas é isso: a gente começa com o que tem e com o que está ao nosso alcance. A Avenida Luiz Gushiken, por exemplo, foi uma grande aliada nesse início e continua sendo até hoje.

Com o tempo, a prática passou a impactar diferentes áreas da vida. Mais do que resultado físico, a corrida trouxe mudanças na rotina e na forma de lidar com o dia a dia.

A corrida trouxe mudanças muito importantes pra minha vida, tanto no físico quanto no mental. Eu passei a dormir melhor, tive perda de peso, comecei a render mais nas minhas atividades do dia a dia e, principalmente, encontrei na corrida um tipo de ‘escape’. É um momento que eu consigo aliviar a tensão, organizar os pensamentos e me reconectar comigo mesma. Além disso, conheci pessoas incríveis nesse processo, o que tornou tudo ainda mais especial.

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O desafio de ocupar a rua sendo mulher

Se correr já exige disciplina, para mulheres da periferia o desafio vai além do físico. A ocupação do espaço público ainda passa por questões de segurança que impactam diretamente a rotina de treinos.

Sim, com certeza. Ser mulher na periferia traz algumas inseguranças, principalmente em relação aos horários e aos lugares. À noite, por exemplo, dependendo do horário, eu já evito correr por uma questão de segurança. Também não costumo correr sozinha em determinados locais, então acabo ajustando minha rotina de treinos pensando nisso. É uma realidade que infelizmente ainda faz parte, mas a gente vai encontrando formas de se adaptar e se proteger”, relata Sabrina.

A experiência se repete na fala de Catharina Oliveira, também de 28 anos, que adaptou sua rotina para conseguir manter a prática com mais segurança.

O único problema na minha opinião é referente aos horários para correr! Já pensei muitas vezes em treinar bem mais tarde tipo 21h30/22h mas sou mulher e isso é um risco. Então normalmente corro de manhã.

Entre performance e acolhimento

Nos grupos de corrida da periferia, a lógica muitas vezes é diferente da que domina academias ou assessorias esportivas. O foco deixa de ser apenas desempenho e passa a incluir acolhimento, troca e incentivo coletivo.

Para Sabrina, o grupo teve papel essencial nesse processo.

O grupo teve um papel muito importante na minha trajetória. Ele trouxe um senso de pertencimento muito forte, além de apoio e incentivo. Quando você está em grupo, a experiência muda completamente: tem energia, música, troca, motivação… tudo fica mais leve e mais divertido. Além disso, o grupo mostra que a corrida pode e deve ser inclusiva. Hoje em dia, existe uma ideia de que correr exige equipamentos caros, tênis de mais de mil reais, consultorias e alta performance, mas a vivência no grupo quebra esse padrão e mostra que dá pra começar com o que a gente tem.

Catharina reforça esse olhar mais leve sobre a prática.

De apoio e leveza, a corrida pode com facilidade se tornar algo só focado em performance, e com o grupo é tudo mais leve, sem pressão.

Corrida como autonomia e autoestima

Além dos impactos físicos, a corrida também se conecta diretamente com autoestima, disciplina e percepção de si mesma. Para Catharina, o processo trouxe mudanças concretas e simbólicas.

Desde o inicio do processo emagreci 10 quilos, me tornei mais ativa e disciplinada. Hoje o exercício físico faz parte da minha rotina.

E mais do que números, o significado da corrida hoje passa por autoconfiança.

A corrida representa a recuperação da meu auto estima, o lembrete que meu corpo pode se superar. A mensagem que eu deixo é que a corrida é para todas/todos, não precisamos do look mais bonito, do relógio e tênis mais caro, a corrida é liberdade.

Sabrina também enxerga a prática como um momento de cuidado individual, mas que se conecta com o coletivo.

Hoje, a corrida representa cuidado comigo mesma. É um momento que é só meu, mas que também me conecta com outras pessoas. E eu tento fugir de comparações em relação a pace, performance, equipamentos… eu tento aproveitar o momento da melhor forma. Para outras mulheres da quebrada, eu diria: não esperem ter tudo perfeito pra começar e não se comparem. A corrida não precisa ser cara, nem complicada. Comecem do jeito que dá, no tempo de vocês e nos espaços que vocês têm. A rua também é nossa, e a gente tem o direito de ocupar esses espaços.

Entre ruas, avenidas e encontros coletivos, a corrida nas periferias segue ganhando novos significados. Para muitas mulheres, é mais do que exercício: é presença, autonomia e um jeito de transformar o próprio território em espaço de liberdade.

Com mais de 12 anos de experiência em comunicação, é formada em jornalismo e carrega habilidade em diversas áreas, incluindo redação, mídias digitais, produção e cobertura de eventos, além de fundadora do LazCult. Apaixonada por escrever, explorar novos aprendizados, assistir a bons filmes ou seriados e ler livros que a façam viajar sem sair do lugar.

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