Carregando agora

Potência periférica: moda como expressão cultural e transformação social

Destaque

Potência periférica: moda como expressão cultural e transformação social

Muito além das passarelas e das grandes marcas, a moda também nasce nas ruas, nas comunidades e nos territórios periféricos. No Brasil, o setor tem um peso significativo não apenas cultural, mas também econômico. A cadeia têxtil e de confecção emprega mais de 1,2 milhão de pessoas diretamente, sendo uma das maiores geradoras de trabalho na indústria nacional.

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, o país possui cerca de 19 mil indústrias de vestuário e produz mais de 5 bilhões de peças por ano, abastecendo tanto o mercado interno quanto o externo.

Dentro da chamada economia criativa, que engloba áreas como moda, música, design e audiovisual, o impacto também é expressivo. O setor representa aproximadamente 3,5% do PIB brasileiro, movimentando bilhões de reais e abrindo espaço para novos empreendedores, especialmente entre jovens criadores.

Nesse cenário, a moda tem se consolidado como uma ferramenta de expressão cultural e também como possibilidade de transformação social, principalmente nas periferias. Em muitos territórios, jovens estilistas utilizam a criação de roupas para contar histórias, afirmar identidades e construir novos caminhos profissionais.

Criatividade que nasce na periferia

Nas comunidades, onde muitas vezes o acesso a recursos é limitado, a criatividade surge como resposta. A moda passa a ser um espaço de experimentação, mistura de referências culturais e afirmação de identidade.

É nesse contexto que surgem novos estilistas periféricos, que utilizam a moda não apenas como mercado, mas como arte.

Entre eles está Vitor, conhecido artisticamente como Kira, morador de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.

Moda como arte: a trajetória de Kira

Filho de uma família cearense, Kira nasceu em São Paulo e cresceu em Paraisópolis. Seu primeiro contato com a moda aconteceu ainda na infância, observando a avó trabalhar como costureira.

Enquanto ela produzia roupas para moradores da região, ele passava horas sentado ao lado da máquina de costura, acompanhando o processo. Foi ali que nasceu o interesse pela criação de peças.

Mas o caminho até a moda não foi imediato. Antes de se dedicar totalmente à área, ele chegou a trabalhar em mercado e também se envolveu com música. O ponto de virada aconteceu quando decidiu investir naquilo que realmente queria construir.

Com poucos recursos, comprou uma máquina de costura simples e alguns tecidos. A primeira peça criada foi um vestido de cetim branco feito para uma amiga, no início de sua trajetória como criador.

Peças que contam histórias

Para Kira, a moda vai muito além da estética. Cada peça carrega uma narrativa e faz parte de um universo criativo maior, que envolve fotografia, música e cultura.

image-1024x682 Potência periférica: moda como expressão cultural e transformação social

Foto do projeto Anômala, do estilista Kira. A modelo Sophia aparece vestindo uma das criações da coleção. A imagem valoriza a proposta artística da coleção e reforça a narrativa criativa do estilista.

(Foto: Diego de Jesus)

Em um de seus projetos mais marcantes, o estilista transformou um momento de luto pela perda de uma amiga em um processo criativo. As peças foram feitas a partir de tecidos reaproveitados e estruturas assimétricas, traduzindo emoções e memórias.

“Costurar é uma forma de colocar para fora o que estou sentindo”, afirma Kira.

A primeira coleção: Akuma

Atualmente, Kira trabalha no desenvolvimento de sua primeira coleção oficial, intitulada Akuma. O projeto vem sendo construído há cerca de quatro anos e reúne diferentes linguagens artísticas, como moda, música, ilustração e narrativa visual. A coleção é colaborativa com Luan Russo (coautor e prop creator).

A coleção apresenta uma história fictícia que aborda temas como vida, morte e transformação. Para o estilista, o conceito parte da ideia de que as pessoas não precisam morrer para renascer, cada mudança na vida pode representar uma nova versão de si mesmo.

As peças da coleção também seguem uma estética mais experimental, com estruturas maiores e conceitos mais artísticos, refletindo o desejo do estilista de criar roupas que se aproximem de esculturas.

Moda periférica sem estereótipos

Apesar de sua trajetória estar diretamente ligada à periferia, Kira acredita que a moda produzida nesses territórios não deve ser limitada a rótulos.

Segundo ele, muitas vezes o trabalho de estilistas periféricos é associado apenas ao reaproveitamento de tecidos ou à customização de roupas, quando na verdade existem inúmeras possibilidades criativas.

Seu próprio trabalho traz influências de diferentes culturas, especialmente da estética asiática, como animes, música e produções visuais japonesas, coreanas e chinesas. Essas referências também inspiraram seu nome artístico.

Moda que inspira novas trajetórias

Mesmo no início da carreira, Kira já percebe o impacto de seu trabalho. Ele conta que recebeu mensagens de pessoas que decidiram estudar moda depois de conhecer seus projetos.

Para ele, a moda precisa ser vista antes de tudo como uma forma de expressão.

“A moda é arte. Você não precisa esperar alguém abrir uma porta para começar. Se você tem uma ideia e vontade de criar, já pode começar”, diz.

Novas vozes da moda periférica

Assim como Kira, diversos jovens criadores têm utilizado a moda como instrumento de expressão, identidade e transformação social.

Outros participantes também compartilham suas trajetórias e mostram como diferentes iniciativas podem abrir caminhos, ampliar horizontes e revelar novas potências criativas nos territórios periféricos, fortalecendo vozes e talentos que transformam suas realidades.

Quer saber mais sobre Kira? Acompanhe seu trabalho no Instagram: @star_starlight._.

Acompanhe nossas matérias anteriores e fique atento: em breve, novas histórias chegam por aqui.

Jornalista formado pela UNINOVE, com experiência em assessoria de imprensa e atuação na área de comunicação. Especialista em Marketing Digital, Marketing Corporativo e Marketing Pessoal pela UAM, também possui formação em escrita criativa pela PUC-RS, destacando-se pela habilidade em criar conteúdos estratégicos e narrativas inovadoras.

Publicar comentário