Muito além do futebol: comunidades resgatam tradição de pintar ruas para a Copa do Mundo
Moradores se mobilizam para decorar ruas, reunir vizinhos e manter viva uma cultura que atravessa gerações nas periferias
Antes mesmo de a bola rolar na Copa do Mundo de 2026, muitas comunidades já vivem o clima do torneio. Em diferentes bairros da periferia, moradores se organizaram para pintar ruas, pendurar bandeirinhas e transformar espaços públicos em pontos de encontro para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira.
A tradição, que marcou gerações durante as Copas do Mundo, vem sendo retomada por iniciativas comunitárias que enxergam nas pinturas muito mais do que uma decoração temática. O objetivo é fortalecer os laços entre vizinhos, incentivar a participação das crianças e preservar uma manifestação cultural popular que, nos últimos anos, perdeu espaço em muitas regiões.
Uma dessas iniciativas é o projeto Colorindo Raízes, criado em 2024. Para a edição deste ano da Copa, a proposta foi trocar as pinturas de fachadas pela revitalização das ruas.
“A ideia de pintar a rua surgiu através do projeto Colorindo Raízes. Na edição da Copa do Mundo, ao invés de colorir casas, buscamos resgatar uma cultura esquecida nos últimos anos: pintar as ruas. O projeto existe desde 2024“, explica Ives, idealizador da ação.
Embora o projeto tenha realizado intervenções diretas em duas ruas, o impacto acabou indo muito além do planejado. As imagens compartilhadas nas redes sociais incentivaram outros moradores a organizarem mutirões em suas próprias comunidades.
“Oficialmente realizamos ações em duas ruas, mas a ideia sempre foi incentivar outras pessoas a fazerem em suas próprias comunidades. O movimento viralizou na internet e isso colaborou muito“, conta. Segundo ele, cerca de 20 ruas receberam apoio indireto para desenvolver suas próprias decorações para a Copa.






Crianças assumem o protagonismo
Um dos aspectos mais marcantes da iniciativa é a participação das crianças. Com pincéis, tintas e muita criatividade, elas ajudam a desenhar bandeiras, símbolos do futebol e elementos que remetem ao Brasil.
“Nas duas edições oficiais, as pinturas foram feitas por crianças de todas as faixas etárias. Os adultos voluntários ajudavam com as decorações em altura. Também plantamos a ideia de que tudo o que sobra de material passa para a outra rua“, afirma Ives.
A dinâmica cria uma rede de colaboração entre moradores e amplia o alcance das ações sem a necessidade de grandes investimentos.
Copa como ferramenta de convivência
Para além da expectativa pelos jogos, as iniciativas têm ajudado a ocupar os espaços públicos e promover momentos de convivência entre pessoas que muitas vezes compartilham a mesma rua, mas pouco interagem no dia a dia.
Em um período marcado pelo uso constante de telas e redes sociais, os mutirões também se transformam em oportunidades para aproximar diferentes gerações.
“A pintura de rua representa muito mais do que futebol. É a forma cultural que a gente encontra para se sentir mais próximo de um futebol que hoje está cada vez mais elitizado. É uma cultura que dura décadas e é muito importante ensinar para a nova geração para que esse movimento não morra. Durante uma das ações, um pai me disse que há muito tempo não via o filho dele ficar tanto tempo sem usar o celular como naquele dia“, conclui Ives.
Enquanto a Copa do Mundo se aproxima, as ruas coloridas mostram que, nas periferias, o campeonato começa bem antes do apito inicial. E que, muitas vezes, a maior vitória acontece fora de campo: na construção de comunidade, pertencimento e memória coletiva.



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